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A tradição · Coimbra

A guitarra de Coimbrapeça a peça

A guitarra de Coimbra tem doze cordas de metal em seis pares, um afinador de metal em leque e a cabeça rematada em lágrima. Ganhou a forma de hoje por volta de 1940, das mãos de Artur Paredes e dos irmãos Grácio. Esta é a do filho, Carlos Paredes, feita em 1967: 83 cm, 22 trastes.

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AS MEDIDAS

A guitarra de Carlos Paredes, cotada

De frente e de lado, com as medidas da ficha. O 12.º traste fica a meio da corda: a 23,35 cm da pestana, já por cima do corpo.

12.º traste, a meio da corda83 cmcorpo 42braço 20,5leque 20corda vibrante 46,7 cm37,5 cmboca 8,27,28,2cavalete 2ilhargas, de lado
Ficha n.º 13 de Castela · João Pedro Grácio Júnior, 1967 · medidas em centímetrosMedido[1]o contorno, o leque e a lágrima são desenhoEsquema
A AFINAÇÃO

Lá, sol, ré, Lá, Sol, Dó

Seis pares de cordas, um tom abaixo da guitarra de Lisboa. Carregue numa ordem para a ouvir; troque para Lisboa para ouvir a diferença.

Notas e cordas da guitarra afinada à maneira de Coimbra: lá · sol · ré · Lá · Sol · Dó. O som é sintetizado aqui, a partir das notas — não é uma gravação de uma guitarra. Documentado[2]

A FAMÍLIA

Vinte e uma guitarras, à mesma escala

As guitarras que se tocaram em Coimbra e que Castela mediu, de João de Deus a Jorge Gomes. A caixa cresce, as ilhargas sobem, os trastes passam de 17 a 22.

  1. João de Deus

    1830–1896

    17 trastes · corpo 36,4 · ilharga 7,0

  2. Augusto Hilário

    1864–1896

    17 trastes · corpo 37,5 · ilharga 6,5

  3. Anthero da Veiga

    1866–1960

    21 trastes · corpo 39,5 · ilharga 5,9

  4. Manuel Mansilha

    1875–1956

    17 trastes · corpo 38,5 · ilharga 7,0

  5. Francisco Menano

    1888–1970

    17 trastes · corpo 39,0 · ilharga 7,9

  6. Eugénio da Veiga

    1893–1977

    18 trastes · corpo 41,5 · ilharga 7,9

  7. Artur Paredes

    1899–1980

    22 trastes · corpo 42,0 · ilharga 9,0

  8. Flávio Rodrigues

    1902–1950

    18 trastes · corpo 41,5 · ilharga 8,2

  9. Albano de Noronha

    1902–1967

    22 trastes · corpo 42,0 · ilharga 9,0

  10. Afonso de Sousa

    1906–1993

    22 trastes · corpo 41,5 · ilharga 8,5

  11. Jorge Morais (Xabregas)

    1908–2004

    19 trastes · corpo 42,2 · ilharga 6,5

  12. Ângelo Vieira Araújo

    1920–2010

    17 trastes · corpo 41,8 · ilharga 8,0

  13. Armando de Carvalho Homem

    1923–1991

    22 trastes · corpo 41,7 · ilharga 9,8

  14. Carlos Paredes

    1925–2004

    22 trastes · corpo 42,0 · ilharga 8,2

  15. António Brojo

    1927–1999

    22 trastes · corpo 41,5 · ilharga 8,2

  16. António Portugal

    1931–1994

    22 trastes · corpo 41,5 · ilharga 8,8

  17. Jorge Tuna

    n. 1937

    22 trastes · corpo 41,8 · ilharga 8,7

  18. Octávio Sérgio

    n. 1937

    22 trastes · corpo 41,5 · ilharga 10,3

  19. Manuel da Veiga

    n. 1940

    18 trastes · corpo 40,0 · ilharga 5,8

  20. António Ralha

    n. 1941

    22 trastes · corpo 42,0 · ilharga 9,0

  21. Jorge Gomes

    n. 1941

    22 trastes · corpo 42,0 · ilharga 8,5

As seis guitarras da geração mais velha têm, em média, corpo de 38,7 cm, ilhargas até 7,0 cm e 17,8 trastes. As seis da mais nova: 41,5 cm, 8,5 cm e 21,3.

Ordenadas pelo ano de nascimento de quem as tocou, que nem sempre é o da guitarra: a de Artur Paredes, por exemplo, é de 1962. A laranja, as de 22 trastes.

Medido[1]Esquema
DE 17 A 22

Como se fez a guitarra de Coimbra

Não se inventou de uma vez: foram vinte anos de mudanças, de Artur Paredes com a família Grácio.

O que mudou
  1. ilhargas mais altas
  2. a caixa reforçada com três travessas
  3. madeiras, colas e vernizes escolhidos com mais rigor
  4. o braço, que era plano, passa a abaulado
  5. trastes de aço, mais altos, em vez de latão
  6. de 17 trastes para 22
Documentado[1]
  1. 1808

    Um caderno de “Várias peças para se tocar em guitarra”, hoje na Biblioteca Geral da Universidade: a guitarra inglesa já se tocava em Coimbra.

    Documentado[1]
  2. c. 1870

    Aparece o afinador em leque, desenvolvido em Portugal a partir do mecanismo das guitarras inglesas.

    Documentado[2]
  3. c. 1900

    Em Coimbra toca-se a guitarra toeira, ou “banza”, de caixa em pera e 17 trastes. Augusto Nunes dos Santos, violeiro da cidade, faz-lhe a voluta oval. A afinação é a que Paredes vai guardar: lá, sol, ré, Lá, Sol, Dó.

    Documentado[1]
  4. c. 1920

    Artur Paredes começa a mudar a guitarra, devagar e em parceria com a família Grácio, para ter um som mais alto e mais agressivo.

    Documentado[1]
  5. 1931

    Kim Grácio reforma uma das guitarras de Paredes; está hoje no Museu Académico.

    Documentado[1]
  6. 1937

    Numa guitarra de Afonso de Sousa, de João Pedro Grácio Júnior, ainda com 17 trastes, as ilhargas já sobem e a cabeça já acaba em lágrima.

    Documentado[1]
  7. c. 1940

    O modelo fica feito: mais robusto e mais largo. Para uns ganhou som; para outros perdeu elegância e clareza.

    Documentado[1]
  8. 1945

    Numa serenata na Sé Velha, com Paredes, Afonso de Sousa e Armando Goes, o público dá pela força da guitarra nova.

    Documentado[1]
  9. anos 60

    A guitarra de Coimbra entra no fado de Lisboa, afinada um tom acima. Fontes Rocha e Pedro Caldeira Cabral estão entre os primeiros a tocá-la assim em palco.

    Documentado[2]
COIMBRA E LISBOA

Duas guitarras portuguesas

Uma nasceu para a canção de Coimbra, a outra para o fado de Lisboa, e Coimbra contra Lisboa dá discussão há décadas. Desde os anos 60, cada vez mais guitarristas de fado tocam a de Coimbra, afinada um tom acima.

CoimbraLisboa
Corda vibrante470 mm440 mm
Afinaçãolá · sol · ré · Lá · Sol · Dósi · lá · mi · Si · Lá · Ré
Sommais grave e concentradomais agudo, com o “gemidinho”
Cabeçaremate em lágrimaremate em caracol
Nasceuc. 1940, Artur Paredes e os Grácioc. 1920, para o fado

Documentado[2]

Referências
  1. L. P. R. Castela (2011), A guitarra portuguesa e a canção de Coimbra: subsídios para o seu estudo e contextualização, dissertação de mestrado em Estudos Artísticos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra — anexo I, fichas de cordofones. estudogeral.uc.pt/handle/10316/19516
  2. N. Cristo (2014), The Portuguese guitar: history and transformation of an instrument associated with fado, dissertação de mestrado em Música, York University (Toronto) — com o apêndice E, calibres das cordas. yorkspace.library.yorku.ca/items/930394d5-c5cc-442c-8139-53395c3e3c91
  3. A. R. Correia (2014), “Do Choupal até à Lapa”: etnografia do constructo da canção de Coimbra, tese de doutoramento em Ciências Musicais – Etnomusicologia, Universidade Nova de Lisboa. run.unl.pt/handle/10362/14778