Temperatura—°C◆Qualidade do Ar—EAQI◆Vento—km/h◆Mondego—m³/s◆
A tradição · Coimbra

Fado de Coimbraou canção de Coimbra, conforme quem a canta

O fado de Coimbra canta-se na rua, à noite, com guitarra de Coimbra e viola. Há estudantes a fazer música pelas ruas da cidade desde, pelo menos, 1539; há mais de um século que se discute se aquilo é fado. Muitos dos que o cantam preferem chamar-lhe canção de Coimbra.

A Sé Velha de Coimbra à noite, na maqueta: a fachada iluminada, a escadaria em baixo e as casas da Alta com janelas acesas.
A Sé Velha à noite, na maqueta · as luzes são desenhoEsquema
O NOME

Fado, ou canção?

Cada geração chamou-lhe outra coisa, e o nome diz sempre de onde se acha que veio: de Lisboa, pelos estudantes, ou da própria cidade.

  1. 1860

    Fado de Coimbra

    João António Ribas

    Publica no Porto, num álbum de músicas nacionais, o “Fado Atroador”, também dito “Fado de Coimbra”. O nome foi título de uma canção antes de ser nome de um género.

    Documentado[2]
  2. 1890

    levado pelos estudantes

    Ernesto Vieira, Dicionário musical

    O fado só é popular em Lisboa, escreve; para Coimbra foi levado pelos estudantes, e os camponeses dos arredores têm cantigas suas.

    Documentado[2]
  3. 1904

    fado de Coimbra

    Alberto Pimentel, A triste canção do sul

    Filho do de Lisboa, chegado depois de 1850, mas mais lírico: canta o amor e a saudade, e é cantado por gente de outra condição.

    Documentado[2]
  4. 1922

    serenata coimbrã

    Armando Leça, Da música portuguesa

    Separa-a do fado pela música: o fado improvisa-se em tom menor e compasso binário, só com os acordes de tónica e dominante; a serenata prefere o maior, aceita o ternário e usa mais harmonia.

    Documentado[2]
  5. 1939

    talvez não descenda

    Mário de Sampayo Ribeiro, A música em Coimbra

    Pode não vir do fado de Lisboa, mas dos lunduns que o folclore da região já cantava, como o da Figueira da Foz.

    Hipótese[2]
  6. 1964

    balada, serenata, fado académico

    Ernesto Veiga de Oliveira

    Cinco nomes de uma vez: fado de Coimbra, fado-canção, balada, serenata e fado académico. Nenhum pegou sozinho.

    Documentado[2]
  7. 1978

    o chamado fado de Coimbra

    Afonso de Sousa, 1.º Seminário sobre o Fado de Coimbra

    O segundo guitarra de Artur Paredes põe “chamado” antes do nome, por cautela: para não o confundir com o de Lisboa, que canta a desgraça e o destino.

    Documentado[2]
  8. 2013

    canção de Coimbra

    as teses, a Universidade, a UNESCO

    É o nome que ficou nos papéis: quando a Universidade entrou na lista do Património Mundial, a prática musical académica foi referida como canção de Coimbra. Fora dos papéis, muitos continuam a dizer fado.

    Documentado[1]
“Então e agora, passo a chamar ao Fado Hilário, Canção do Hilário?!”
— a pergunta que o nome novo levanta, em A. R. Correia (2014) Documentado[1]
A NOITE

Antes de ter nome, tinha noite

O que ficou escrito sobre estudantes a tocar pelas ruas de Coimbra, séculos antes do primeiro disco.

  1. 1539

    D. João III escreve ao reitor da Universidade: há estudantes que, com escândalo dos moradores, andam de noite, com armas, fazendo músicas.

    Documentado[1]
  2. 1541

    Uma carta régia proíbe as “soiças”, as festas ruidosas do fim das aulas. Delas nascerá a Latada.

    Documentado[1]
  3. 1800

    Antes da meia-noite do ano novo, estudantes descem às margens do Mondego para esperar o século XIX, munidos de borrachas de vinho e de guitarras.

    Documentado[1]
  4. 1822

    António Feliciano de Castilho e onze companheiros fazem as festas da Primavera na Lapa dos Esteios, na margem esquerda. O sítio fica dos poetas.

    Documentado[1]
  5. 1842

    O príncipe Lichnowsky, de passagem, repara que os estudantes servem-se da espada e da guitarra com igual perícia.

    Documentado[2]
  6. 1862

    Júlio César Machado vai a uma festa académica: guitarra e viola, valsa e cancan, uma ária de Bellini, o lundum da Figueira e uma cantiga do fado.

    Documentado[2]
  7. 1884

    Nas festas da Rainha Santa, uma serenata desce o Mondego em barcos embandeirados e iluminados a balões, da Lapa dos Esteios ao Cais das Ameias, com orquestra e coros. Acaba em marcha de archotes pelas ruas.

    Documentado[1]
  8. 1919

    A polícia proíbe as serenatas. A imprensa da cidade protesta: nem todos os grupos que cantam de noite perturbam o sossego.

    Documentado[1]
  9. 1937

    As serenatas de galanteio só se permitem até à meia-noite. Quem passa da hora vai dormir à esquadra e paga cinquenta escudos.

    Documentado[1]
O MAPA

Onde se canta

As ruas das serenatas, os largos onde se canta hoje, e a linha que as serenatas dos futricas não passavam.

Rua do LoureiroRua dos CoutinhosRua das EsteirinhasRua do NortePalácios ConfusosRua de Quebra-Costas222223444156798101112

As ruas das serenatas

Nas memórias de quem lá estudou, as serenatas faziam-se habitualmente na Rua do Loureiro, na dos Coutinhos, na das Esteirinhas, na do Norte e nos Palácios Confusos. Da mesma lista, a Rua do Cosme e a Rua das Colchas já não estão no mapa.

Documentado[1]
OS DISCOS

Um século de discos

Cada ponto é um registo: 1511, de 1902 a 2013. A cheio, a primeira vez que um cantor gravou um tema; a vazio, as reedições. Entre 1929 e 1952, nada.

19101920193019401950196019701980199020002010a Geração de Oiro vai aos estúdiosnenhum disco entre 1929 e 1952a balada e a trovao CD reedita tudo22 anos sem um disco19101920193019401950196019701980199020002010

1928 — 78 registos, 67 gravações novas (algumas datas aproximadas)António Menano · Francisco Caetano · Edmundo Bettencourt

gravação nova reediçãoDocumentado[1]

Quem mais gravou
  1. Augusto Camacho74 temas
  2. Luiz Goes64 temas
  3. José Mesquita49 temas
  4. António Menano47 temas
  5. Adriano Correia de Oliveira36 temas
  6. José Afonso26 temas
  7. António Bernardino22 temas
  8. Frederico Vinagre21 temas
Os temas mais gravados
  1. Fado Hilário24 vozes
  2. Trova do Vento Que Passa15 vozes
  3. Fado Maria14 vozes
  4. Samaritana14 vozes
  5. O Meu Menino12 vozes
  6. Menina e Moça11 vozes

É a lista que o autor conseguiu reunir até 2013: 1511 registos, 142 cantores. Os discos de depois não estão cá.

A SERENATA

Duas guitarras, uma viola, quatro fados

A serenata de rua tinha uma ordem, sem regra escrita. Carregue num passo, ou espere pelo fim.

uma fachada qualquer da Alta

A ordem de uma serenata de rua no fim dos anos 1950, como José Niza a lembrou. Documentado[1]

Em vez de palmas, luz

Na serenata de rua não se aplaudia: no fim, acendiam-se e apagavam-se as luzes das janelas. O silêncio nas serenatas de palco veio da rádio: na primeira que a Emissora Nacional transmitiu, em Dezembro de 1946, Augusto Camacho Vieira pediu aos presentes que não batessem palmas, para soar a serenata de rua. Ficou.

Documentado[4]

A Monumental

A Serenata Monumental abre a Queima das Fitas, à meia-noite. A primeira foi em 1948, no Penedo da Saudade; desde 1949 canta-se nas escadas da Sé Velha. Em 1969, com a crise académica, foi cancelada: luto académico. Voltou em 1978.

Documentado[1]

Uma balada nova por ano

A Monumental fechava sempre com a mesma Balada da Despedida, a do 6.º ano de Medicina de 1958–59. Em 1988 um grupo trocou-a por uma nova, a do 4.º ano de História; desde então, cada ano estreia a sua, antes de fechar com a Balada de Coimbra.

Documentado[1]

Guitarra de Coimbra e viola

Na Monumental só entram a guitarra de Coimbra e a viola. A guitarra de hoje nasceu por volta de 1940, de Artur Paredes com os irmãos Grácio: corpo maior, 22 trastes em vez de 17, a voluta rematada em lágrima, e afinada um tom abaixo da de Lisboa.

A guitarra, peça a peça →Documentado[2]Documentado[3]
AS ÉPOCAS

De Hilário à trova

Oito tempos da canção de Coimbra, com os nomes de cada um.

há discos nenhum disco

  1. 1 · séc. XVIII–1850

    Primeiras manifestações

    Estudantes que tocam flauta e viola de arame, improvisam modinhas e fazem saraus e serenatas. Ainda não há um estilo.

    Silveira Malhão · Domingos Caldas Barbosa

  2. 2 · 1850–1880

    Emergência

    A viola toeira, a “banza”, é o instrumento dos estudantes. José Dória escreve “Noite Serena”; em 1880 funda-se o Orfeon Académico.

    João de Deus (1830–1896) · José Dória (1824–1869)

  3. 3 · 1880–1920

    Ultra-romantismo

    O tempo da serenata de galanteio e da voz semi-operática, com os “ais” sustentados nas notas altas. Hilário torna-se o primeiro mito.

    Augusto Hilário (1864–1896) · Manassés de Lacerda (1885–1962)

  4. 4 · 1920–1930

    Geração de Oiro

    Cantores que também compõem, poesia nova, e a guitarra de Artur Paredes. É a primeira vez que a canção vai a disco em quantidade: 1927–1929.

    António Menano · Edmundo Bettencourt · Artur Paredes · Afonso de Sousa

  5. 5 · 1930–1950

    Retrocesso

    Bettencourt e Paredes vão para Lisboa, Menano para Moçambique. Não se grava um disco. Em 1937 a propaganda do regime quis levar estudantes a cantar a Paris e não encontrou quem.

    Fado Académico de Coimbra (1930–1938)

  6. 6 · 1950–1960

    Os anos 50

    Voltam os discos, em 1952–1953, e uma geração que relê os anos 20 e procura letra nova.

    Luiz Goes · Machado Soares · José Afonso · António Portugal · António Brojo

  7. 7 · 1960–1978

    Balada e trova

    José Afonso grava a “Balada do Outono” (1960); Adriano Correia de Oliveira, António Portugal e Manuel Alegre, a “Trova do Vento que Passa” (1963). A canção de Coimbra torna-se canção de intervenção.

    José Afonso · Adriano Correia de Oliveira · Manuel Alegre · Rui Pato

  8. 8 · 1978–hoje

    Depois de 1978

    O 1.º Seminário sobre o Fado de Coimbra e uma serenata na Sé Velha recomeçam tudo. Em 1980 volta a Queima; nascem os grupos da Secção de Fado da Académica.

    José Mesquita · Jorge Cravo · Grupo de Fados e Guitarras de Coimbra

Os períodos e os nomes são os de A. R. Correia, que segue os investigadores da canção de Coimbra. Documentado[1]

ONDE OUVIR

À hora marcada

A serenata é na rua e tem as suas noites no ano. Estas salas têm canção de Coimbra todas as semanas, para quem está de passagem.

Horários confirmados em setembro de 2026. Podem mudar; antes de ir, veja na página de cada casa.

Ouve-se ao vivo nas serenatas.A Monumental abre a Queima das Fitas, em Maio; a da Festa das Latas é em Outubro.

As festas de todos os anos, na Agenda →
Referências
  1. A. R. Correia (2014), “Do Choupal até à Lapa”: etnografia do constructo da canção de Coimbra, tese de doutoramento em Ciências Musicais – Etnomusicologia, Universidade Nova de Lisboa (com apêndice discográfico). run.unl.pt/handle/10362/14778
  2. L. P. R. Castela (2011), A guitarra portuguesa e a canção de Coimbra: subsídios para o seu estudo e contextualização, dissertação de mestrado em Estudos Artísticos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. estudogeral.uc.pt/handle/10316/19516
  3. N. Cristo (2014), The Portuguese guitar: history and transformation of an instrument associated with fado, dissertação de mestrado em Música, York University (Toronto). yorkspace.library.yorku.ca/items/930394d5-c5cc-442c-8139-53395c3e3c91
  4. Z. Veloso (2021), “Palmas nas serenatas: o curioso evoluir das tradições”, Penedo d@ Saudade — com o testemunho de Augusto Camacho Vieira sobre a serenata da rádio de 1946. penedosaudade.blogspot.com/2021/11/palmas-nas-serenatas-o-curioso-evoluir.html
  5. Câmara Municipal de Coimbra, Queima das Fitas (eventos regulares). www.cm-coimbra.pt/areas/viver/cultura/eventos-regulares/queima-das-fitas
  6. Associação Académica de Coimbra, Festa das Latas e Imposição de Insígnias. www.festadaslatas.pt/pt
  7. Ruas, largos, edifícios e água da planta: OpenStreetMap, contribuidores (ODbL); relevo: Direção-Geral do Território, MDT LiDAR 2 m (2024). www.openstreetmap.org/copyright